Sobre a Shaking Medicine de Bradford Keeney
"Bradford Keeney é um homem com uma missão. . . As implicações do seu trabalho são enormes. "
SHAKING - DANÇA CONSCIENTE
Shaking Medicine é a medicina através de movimentos espontâneos do corpo, é a medicina através do chacoalhar, da agitação, dos tremores e está associada com a experiência de atingir o êxtase. Esta é a mais transformadora experiência de entrada ao numinoso* - o mysterium tremendum et fascinans. Indiscutivelmente, todas as religiões e pré-religiões inicialmente sentiam o êxtase, que era considerado como um despertar dos mistérios originais, a mais extraordinária experiência possível para um ser humano.
O surgimento das instituições sociais criam lugares específicos para esse arrebatamento estático - seja como templos, ashrams, igrejas, sinagogas, as sociedades de medicina, guildas xamã, ou sociedades pagãs - resultou na quietude da experiência originária em troca de uma compreensão narrativa uniforme para a manutenção da hierarquia social. A experiência extática foi sacrificada pela crença normalizada e a conformidade do grupo. Isto foi uma verdade para o xamanismo, bem como para as principais religiões do mundo.
Na sociologia da religião este processo social é chamado de “rotinização" da experiência fundante carismática. A selvagem experiência extática é substituída pelo ritual padronizado que abole o espontâneo e a improvisação. Ele agora é guiado por imagens, por um clichê (texto) verbalizado de forma mecânica, e os juramentos de fidelidade, que tomaram o lugar da criatividade natural, da liberdade de expressão e das emoções intensas.
As tradições de shaking propõem um mergulho para nós, que somos mais profundamente sedentos e famintos por uma experiência extática. A fonte desta bem-aventurança, o shaking, que é o Ju/'hoan dos Bushmen chamado de n/om. Eles sabiamente nunca dão uma definição final ou total para n/om, mas respeitosamente aludem ao fato de ser um mistério responsável por trazer a força vital e reconhecer que a sua raiz é o amor sem limites. Quando você acessa ou recebe o n/om, ele o faz tremer de prazer extático. Para as pessoas que vêm de culturas mais condicionadas, muitas vezes isso é difícil, pois teriam que livrar-se dos hábitos cognitivos e de um sistema de crenças bem construído, que inibem totalmente os sentimentos despertados.
Nós raramente somos encorajados a ficar sob o céu com uma presença nua e crua, disponível para ser atingido por um relâmpago de êxtase. Até mesmo a maioria das culturas xamânicas, tanto as antigas como as mais recentes, tornaram essa experiência algo "domesticado" e a conduziam de uma forma calma rotineira. Os xamãs de outrora eram selvagens, imprevisíveis, e pareciam estar fora de controle. Ninguém, incluindo o xamã, sabia o que iria acontecer em uma cerimônia. Os chamados "espíritos" assumiam. O mesmo acontecia nas cerimônias religiosas primitivas. Depois, o budismo expulsou os xamãs Bon**, os cristãos seguiram o seu extático e xamãs foram reduzidos pelo direito hereditário ou homogeneizados, por uma formação padronizada.
A medicina do shaking é um convite à experiência extática selvagem. É o xamanismo, espiritualidade, religião e a atuação da transformação em sua forma elementar totalmente improvisada. O shaking extático incentiva radicalmente a prática do xamanismo selvagem, religião selvagem, espiritualidade selvagem e performances transformadoras selvagens. Isto não se refere ao comportamento trivial, irresponsável ou antiético. O selvagem profundo envolve uma hiper complexidade, a grande mente da natureza que mantém nossa psique como uma pequena parte de uma mais abrangente interdependência, em uma constante mudança nessa rede de relações.
Nós podemos escolher nos movermos em direção ao selvagem e imprevisível, desconhecido e inominável. O sagrado vive no selvagem. O sagrado constitui a natureza, o selvagem.. O problema começou quando alguém disse que as palavras e os significados deveriam explicar, domesticar, e encobrir a experiência selvagem. Dentro dessa hegemonia de palavras, que desmistificou o que era misterioso e se afastou do seu meio natural, a fim de tornar-se semanticamente domado. Nós sacrificamos a nossa conexão com o coração do universo em favor de um delirante “menos corpo” e “mais cabeça”, que nos aprisionou muito tempo.
Considere um retorno ao estado selvagem. Torne-se um xamã selvagem, um pagão selvagem, um cristão selvagem, um budista selvagem, um judeu selvagem, um agnóstico selvagem, um artista selvagem, um ator selvagem, um selvagem qualquer como você queira chamá-lo, porque o nome é o que menos importa, o que vale é a experiência de ser selvagem neste caminho que é natural e incomum, dando prioridade ao mistério do que ao controle.
Nestes tempos desafiadores e complexos pós-moderno, o shaking é indiscutivelmente a melhor forma de cultivar a liberdade estética como a que se obtém nos espetáculos artísticos. Alguns exploradores do espírito humano estão caminhando longe das instituições excessivamente rígidas, de quadros explicativos, e treinamentos reducionistas (quer espiritual, terapêutica ou educacional), a fim de inventar uma forma de mudança de estágio e um espaço cerimonial que promova a experiência libertadora de transformação do êxtase selvagem.
Notas de tradução:
* Segundo Jung: A experiência do “numinoso” desafia explicações, porém parece conter uma mensagem individual que, embora misteriosa e enigmática, também é profundamente impressionante.
Jung percebia que a crença, consciente ou inconsciente, isto é, uma disponibilidade prévia para confiar em um poder transcendente, era uma condição prévia para a experiência do numinoso. O numinoso não pode ser conquistado; o indivíduo pode somente abrir-se para ele. Porém, uma experiência do numinoso é mais que uma experiência de uma força tremenda e compulsiva; é um confronto com uma força que encerra um significado ainda não revelado, atrativo e profético ou fatídico.
**Bon: a tradição espiritual mais antiga ainda existente do Tibete.